Usos E Costumes
Para melhor se compreender o presente, é fundamental conhecer-se o passado. Neste sentido, considerámos pertinente efectuar uma breve “viajem” para usos e costumes das gentes da Terrugem.
Assim sendo, apoiámo-nos na obra Vila Verde – Cem anos de História, de Elvira Lopes, uma natural da Freguesia.
“(…) No tempo dos meus avós, as mulheres usavam as saias rodadas a cobrir os pés. Isto até ao ano de 1920, aproximadamente. A partir daí, as saias foram subindo. A saia era de baetilha (tecido de flanela de algodão) ou castarino; a blusa de riscado ou chita, o lenço de algodão, ou de lã para as festas, atado à roda da cabeça; o avental bordado, aos Domingos, e de semana um de riscado. O xaile tão característico nas mulheres casadas, passou em desuso a partir de 1940. Era usado para levar o “jantar” ao marido, para abrigar os filhos de mama e em tempo de luto pesado, no caso de pai, mãe, irmãos, etc. A bota de atacadores e presilhas foi substituída por sapatos de botão, a partir de 1930. O avental, Só não era usado em dias de festa. Aliás, as raparigas tinham diversos aventais para usar de semana e ao Domingo à tarde, em dias de baile – ou brincadeira – como era conhecido o termo. Havia também a algibeira atada à cintura, no interior da saia, onde se guardava o dinheiro. O lenço cai em desuso em 1940, só se usando em época de luto pesado. Quanto aos homens, havia a capa para ir ao baile (tipo capa alentejana) e o varino, que se distinguia da capa por ter apenas uma aba nos ombros; o barrete preto e a bota de cano alto. No Inverno e no trabalho, em dias de chuva, usavam polainas, uma espécie de cano que era usado por cima do pé e que abotoava com fivelas. O fato preto era obrigatório no noivo, bem como a camisa de peitilho com rendinhas ou bordados. Era o fato de casamento e o fato de levar para a cova. No trabalho, havia a camisa de riscado com riscas, atada à frente e entrelaçada nas pontas ou fraldas, como se chamava então. A cinta era elemento indispensável no homem.
Costume interessante era o da matança do porco. Uma vez por ano, convidava-se a família mais chegada, isto é, tios e irmãos casados, para comer a cachola e a carne frita (esta no dia seguinte) e dar um jantar de carne aos amigos, que consistia num bom naco de carne, toucinho e chouriço. Por sua vez, as pessoas convidadas faziam o mesmo, aquando da matança do seu porco.
Também houve, no tempo do meu pai, grande rivalidade entre Lourel e este lugar. Os homens matavam-se por dá cá aquela palha. Era nos bailes ou serões, como se chamava ao baile também, que as rixas começavam. Muitos homens eram feridos só por passar a Lourel e serem de Vila Verde.
Os homens eram quase todos canteiros de profissão. Muito bons no ofício, granjearam invejas, e daí lhes veio o nome pejorativo de canteiro de bota alta, alcunha dada pelos montevalenses, que por inveja assim os apelidavam.
Costume interessante era a prenda de casamento dada aos noivos. Cada padrinho, de ambas as partes, dava um saco de trigo, além de pagar as despesas com o registo ou igreja, bem como o fato da noiva.
As prendas eram dadas no dia a seguir ao casamento, no chamado “jantar de galinha”.
Profissões
“Era no rio de água corrente, onde as mulheres lavavam a roupa, que se discutiam as novidades do lugar. No tempo da Primavera juntavam-se em grupos na monda do trigo. (…)
No campo, os homens revezavam-se no trabalho dos milhos, na altura da sacha. Um dia vinha o vizinho fazer o “cartel”, depois das 17 horas. Outro dia ia o vizinho ao companheiro. Assim, as chamadas jeiras se faziam, entre ajudas mútuas; puxadas pelos bois dos lavradores do lugar (…) (isto até aos anos 1900 – 1945, inclusive). Os homens chegavam do trabalho, largavam o cabaz do jantar e iam direitos às tabernas. Se havia trabalho no campo iam para lá, isto a partir da primavera.
Vocabulário
A linguagem era má, um português difícil de entender, muito agressivo na sua pronúncia e muito rápido. Assim, em vez de dizer António, era Atoino; Francisco era Fracisco; Gertudres era Ertrudes; Joaquina era E’quina, etc. As mulheres casadas eram tratadas por tia ou ti, simplesmente. Assim, figura o nome de Marquitas, como diminuitivo de Maria ou Esquinita – Joaquina. E esse pronome, figurava até a morte, assim como o costume de pôr alcunhas a todos os rapazes. Outra expressão de moço forte, era “ um homem como um cavalo”. Uma mulher pequena chamava-se “cuiça”. Você, era bomecê! E a pedir a bênção aos pais era “sa benço pai”. Ao chamar a tia era “A,nha tia” ou o “mé tio”. “ Bócei prá qui, bócei prá colá”. Era essa a linguagem corrente e que deixou marcas.
ALGUNS EXEMPLOS
(Te) arrenego.................................. excomungar alguém
Andar na giraldinha........................ andar na pândega
Arreáta............................................... andar à mão de outrem
Arbela................................................ pessoa de pouco peso
Badameco........................................ pessoa descarada
Bateu a asa...................................... alguém que fugiu à responsabilidade
Andar ao fanico................................ andar a pedir
Deixou o gajo sem ceia................. rapariga bonita por quem suspiram
Dar ao caneco................................. ter que andar depressa
Deu a mão à cadela....................... deu a mão a morte
Dar ao badalo.................................. pessoa linguareira
Cantar a moliana............................ chorar
Calhamaço...................................... pessoa de grandes propoções
Caqueirada...................................... cascalho – cortar o cabelo rente
Calhandrisse................................... andar no palreio
Canejo............................................... pernas tortas
Não tem cabidela............................ não tem valor a conversa
Cachimónia...................................... cabeça grande
Sarilho............................................... roldana de tirar água do poço
Indês.................................................. ovo pequenino
Fuzelas.............................................. magrinho
Padiola.............................................. rapaz ou rapariga de fala grosseira
Padiolão............................................ (igual)
Palafrão.............................................. palerma
Palafrona............................................ palerma
Tinhoso............................................... piolhoso
Taranta................................................ pessoa pouco expedita
Cantar a mula russa........................ estar a chorar
Rapaz de uma cana......................... elogio a um rapaz
Também o compadre bebe............ crítica a alguém
Trocalheira......................................... pessoa desmazelada
Pica a cevada na barriga................. pobre que de repente fica rico
Bençoneiro......................................... pessoa mimada
Caganeirita......................................... menina fraquinha
Cuíça.................................................... filho menor
Melro..................................................... homem finório
Mafarrico.............................................. atrevido
Monco caído........................................ ficar amuado
Mastronça............................................ pessoa de vida duvidosa
Peniquenta.......................................... pessoa enjoada
Trambola............................................. tonta
Tate-bitate........................................... meio gago
Porta da bacalhôa............................. à porta da namorada
Burro abaixo....................................... amuado
Caguinchas........................................ medricas
Jarreta.................................................. mal feito do corpo